ROYAL CAFE CONVIDA: TIM SMITH

Harp (smaller file)

Foi o principal mentor e compositor dos Midlake até há cerca de um ano atrás. Desde então tem focado as suas energias no desenvolvimento de um novo projecto, ao qual deu o nome de Harp (cuja antevisão de lançamento do álbum de estreia fez o topo da lista dos álbuns mais aguardados de 2014 para o Royal Cafe).

Quem me conhece sabe que não terei muito mais a dizer sobre a admiração que nutro pelo trabalho de Tim Smith. Já por várias vezes o referi (aqui no blog, inclusive): para mim ele é um dos verdadeiros génios musicais vivos e a alegria com que hoje o recebo aqui neste humilde espaço não poderá, portanto, caber em qualquer tipo de descrição. Meus amigos, poderá muito bem ser este o mais alto momento da história do Royal Cafe.

Como não tenho muita facilidade em encontrar palavras que classifiquem o sentimento que tenho pela música criada por Tim Smith, o melhor é mesmo passarmos a ouvir o que terá ele a dizer nesta sua estimada passagem pelo (apenas hoje, e ainda que pouca gente o saiba, mais grandioso) blog de Portugal.

Conta-nos, quais as tuas mais antigas memórias musicais?

Não venho de uma família muito musical. Existiam apenas alguns discos pela minha casa. A minha mãe punha a tocar várias vezes B. J. Thomas (“Home Where I Belong”) de manhã, para nos acordar. O meu pai tinha uma cassete do “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”. Mas a música nunca foi proeminente, nessa altura. Quando tinha 10 anos, em 1985, comecei a tocar saxofone jazz. Foi aí que comecei a gostar verdadeiramente de música e que soube, logo pouco tempo depois, que gostaria de fazer vida disso. Desde essa idade até à universidade praticamente só ouvia jazz.

E o que significa a música, para Tim Smith?

Música é um monstro, para mim. É algo que eu não consigo compreender. É algo lindo quando está a acontecer ou quando oiço algo que alguém tenha feito, mas quando te confronta enquanto estás sentado numa cadeira com uma guitarra no colo, aí é um monstro. Normalmente metade da canção (letras/melodia, normalmente) é-me dada com pouco esforço mas a outra metade que tenho de trabalhar (gravar as partes/arranjos) cansa-me do processo e causa-me um grande sofrimento. Sofrimento para concluir a canção, mantendo a visão inicial intacta. A minha esperança é sempre a de que da próxima vez a outra metade da canção chegue mais facilmente.

Relativamente ao teu processo criativo, o que vem primeiro? Uma ideia? Um som específico? Uma melodia específica? Será que nos poderias abrir um pouco o jogo em torno do teu processo criativo?

Normalmente é só uma questão de sentar-me com uma guitarra e ver se se forma alguma melodia ou ambiente. Nessa fase ainda não tenho qualquer letra escrita, então apenas balbucio alguns sons/palavras imperceptíveis para tentar formar uma melodia. Essas ideias normalmente são muito curtas, tipo 30 segundos, apenas suficientes para saber se existe ali algo ou não. Depois deixo-as em paz por algum tempo (dias ou semanas) e passado esse tempo regresso para perceber se são suficientemente fortes para ser perseguidas ou não. Como sou muito lento na criação de canções, isto ajuda-me a não gastar tempo em material inferior. Tenho muitas destas curtas ideias à espera (maior parte delas são medíocres) para vir a usar algum dia, mas normalmente acabo por vir a ter melhores ideias e a não fazer nada com as antigas. Quando a pequena ideia se mostra suficientemente forte para ser perseguida, então aí é que começa o trabalho árduo de tentar sentir onde é que a ideia deverá ir, qual deverá ser o coro (se tiver que existir algum), do quê deverá ser a canção sobre, etc. Para mim parece sempre que tem de haver muito trabalho envolvido. Nunca é do tipo: uma ideia atinge-me e 10 minutos depois está escrita. É uma questão de tocá-la vezes e vezes sem conta até que tudo esteja escrito, enquanto me tento manter positivo e não ficar farto da canção. É como tocares a tua canção favorita 200 vezes por dia durante uma semana, enquanto tentas continuar a ouvi-la como se fosse a primeira vez.

Acho verdadeiramente incrível, e até mágico, que por vezes possas ter uma música quase completa mas que algo em ti te diga que ainda não tem o que necessita para ser finalizada. Quando é que sentes esse momento de que realmente tem o que precisa para estar concluída? Diz respeito a certos sentimentos que possas obter perante determinada música, diz respeito a possíveis escalas musicais que não estejam a ser respeitadas ou notas ou padrões que não soem bem, ou será simplesmente porque determinadas camadas emocionais ainda possam não ter sido atingidas?

O teste é quando pressiono o botão play e gosto mais do que me sinto envergonhado ou desagradado. Aí cria-se uma vontade de ouvir a canção e isso diz-me que está completa ou que pelo menos estou no caminho certo. Muitas vezes, quando algo não soa bem, pensas que lhe irás adicionar algo para ajudar. Por vezes isso ajuda. Por vezes isso magoa. A parte difícil é seres honesto contigo próprio sobre o que realmente soa bem para ti. Muitas vezes terás que te deixar ir com a melhor coisa que encontras, ainda que não seja incrível. Isso é algo complicado quando chegamos à questão do playback (repetição da audição) porque não sentes que a canção consegue sobreviver às expectativas. Existe muita entrega à mediocridade porque ficas desagradado com a canção. Portanto, sim, resume-se tudo a um sentimento.

Gostas de cinema? O cinema tem algum tipo de influência no teu trabalho/processo criativo? Que cineastas preferes? E porquê?

Gosto de todos os tipos de filmes. Contudo, acho que os filmes que mais inspiram a minha música são os filmes dos anos 70. A maneira como estão filmados e o tipo de visual que têm, em película, o tipo de edição, o ritmo… Não quero com isso dizer que não gosto de filmes modernos, porque gosto. Mas filmes como “Andrei Rublev” de Tarkovsky, “McCabe and Mrs. Miller” de Altman, “Harold and Maude” de Hal Ashby, existe neles qualquer coisa verdadeira dos anos 70 e esses são os que mais me inspiram quando estou a escrever canções. Não que correspondam directamente a algum tipo de canção que eu esteja a compor, mas existe aí um tipo de ambiente que eu pretendo capturar. Não irei assistir o Spider Man 3 e depois tentar escrever uma canção (e não que seja um mau filme, provavelmente é óptimo); não é daí que venho e não é aí que eu quero estar quando estou a escrever/compor.

Que outros tipos de influências pode ter o teu trabalho? Algum tipo de música específico? Algum ambiente específico? Alguma obra literária específica?

Com a música passa-se mais ou menos o mesmo, ou seja, o que pões no teu cérebro influencia o que dele pode sair. Não seria capaz de ouvir Justin Bieber (apesar de que ele pode ser óptimo, simplesmente não sei) o dia inteiro e tentar escrever algo depois disso. Tenho de ser cuidadoso com o que oiço enquanto estou em processo de escrita. Novamente, é algo dos anos 70. Grandes nomes como Led Zeppelin, Pink Floyd,  Black Sabbath,  Fleetwood Mac, etc. ou outros ligeiramente menos conhecidos do mesmo período tais como Fairport Convention, Incredible String Band, Steeleye Span, Roy Harper, etc. ou ainda outros menos conhecidos como Loudest Whisper, Bread Love & Dreams, Comus, OPO, Jimmie Spheeris, etc. Oiço muita música, é definitivamente daí que vem a maioria da minha inspiração. Ajuda-me a manter o entusiasmo para fazer um disco. Também estou muito dentro de obras literárias de fantasia e tudo o que se relacione com o período medieval. De momento estou a ler uma trilogia de Robin Hobb, intitulada “The Farseer Trilogy”, que me agrada muito e tem até inspirado alguns temas. Ainda não comecei a cantar sobre dragões, mas consigo prever que isso aconteça quando chegar a altura certa. Acho que na minha cabeça existe alguma espécie de mundo ou sentimento que eu quero trazer até ao nível de gravação, mas normalmente nunca sou muito bom a conseguir fazê-lo. Maior parte das vezes estou até muito longe de o conseguir. Acho que deve ser isso que me faz continuar a tentar.

Estiveste em Portugal, com os Midlake, pelo menos uma vez (Paredes de Coura 2012). Gostaste do que viste? Pessoas, comida, algum tipo de experiência que te tenha marcado?

Para ser honesto, não me recordo muito bem dos países que visitámos. Tentar conhecer o mundo enquanto se anda em digressão não é para mim o melhor ambiente ou forma de o fazer porque eu estava sempre desejoso de chegar a casa. Depois, guiar de sítio para sítio para preparar, fazer o soundcheck, encontrar comida, talvez um chuveiro, telefonar para casa e actuar acaba por deixar muito pouco tempo livre para explorar uma cidade como deve ser. Então, lamento informar que não me recordo muito bem da passagem por Portugal, excepto uma memória que tenho de estar parado na estrada, próximo de uma bomba de gasolina, e de olhar para uma belíssima paisagem rural. Infelizmente, isso é tudo o que me recordo.

E em relação a Harp, o que poderemos esperar?

Se eu conseguir finalizar este disco, acho que toda a gente que tiver gostado de “Occupanther” e de “Courage of Others” irá gostar deste também. Até agora é muito semelhante ao que fiz no passado. É muito difícil afastar-me do que me surge de forma mais natural e do que mais gosto. Não estou a apontar para um novo e desconhecido território pela simples motivação de tentar fazer algo diferente, continuo a achar que não consegui atingir o que está na minha cabeça há vários anos. Talvez isso mude um dia e consiga fazer um álbum que seja completamente diferente do resto do meu material, mas por agora será familiar a quem conheça esses últimos discos. Só espero que o consiga terminar antes que as pessoas desistam de mim. O plano é continuar a fazer álbuns enquanto a inspiração assim o permitir.

Vens de um percurso relacionado com escola de jazz. Quando olhas para o horizonte, que tipo de paisagem musical consegues descodificar para os anos vindouros? Achas que um género como o jazz poderá alguma vez vir a ser readoptado pelos mais jovens?

Realmente não faço ideia do que será a música. Maior parte da música que se faz hoje em dia, que rende milhões, eu não a consigo compreender. Não consigo perceber qual o seu apelo para além de, talvez, o teu amigo estar a ouvi-la. É para mim difícil de imaginar que o Top 40 nunca voltará a ter a grandeza que uma vez teve. Então, para mim, prever para onde é que isto vai… não faço a mínima ideia. Em relação ao jazz ter capacidade para fazer um comeback, creio que nunca voltará a ter a audiência que um dia teve, mas que tem potencial para ser muito mais popular do que hoje é. É um bocado uma música para homem pensador e todos nós já vimos do tipo de música que as massas gostam.

Que tipo de música ouves hoje em dia? Alguma coisa nova que ganhe o teu entusiasmo?

Como mencionei antes, oiço maioritariamente bandas dos anos 70. Não oiço muitas bandas modernas, mas há algumas que me agradam. Adoro a banda Espers, mas não tenho a certeza se ainda estão juntos. A banda Feathers é óptima, mas esses já acabaram. Voice of the Seven Woods/Thunders é muito bom. Fleet Foxes é/era muito bom. Circulus é muito bom. Radiohead, claro. Há mais que agora não me recordo, tenho a certeza. Mas sim, maioritariamente são as bandas antigas que mais me inspiram.

Algum artista específico com quem gostasses de colaborar? Porquê?

Acho que colaborar com Ian Matthews seria fantástico. Admiro a sua capacidade de fazer arranjos e de gravar não apenas as suas canções originais mas também covers e ser capaz de fazê-las soar melhor do que as originais. Dou apenas três exemplos: “Woodstock”, “These Days” e “Do Right Woman”. Adoraria ouvir o que seria ele capaz de fazer com algo que eu escrevi.

Viajemos 30 anos para o futuro e, uma vez lá chegados, olhemos para trás. A que tipo de feito gostarias de estar associado e lembrado por?

Daqui a 30 anos seria porreiro saber que a minha vida teria sido útil de alguma forma mas, no que toca a um objectivo musical pessoal, gostaria de ter feito um ou dois discos que eu achasse capazes de se aguentarem como uns dos meus álbuns favoritos, independentemente de quão bem ou mal tivessem eles vendido.

Muito obrigado Tim! Certamente daqui a 30 anos terás oportunidade de olhar para trás e saber que, pelo menos, fizeste história aquando da tua passagem pelo Royal Cafe.

Serás sempre bem-vindo.

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